“Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou.
(...)E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso, desdobrando diante de seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplêndidas do que havia revelado até então; e a glória do seu início e o esplendor de seu final tanto abismaram os Ainur, que eles se curvaram diante de Ilúvatar e emudeceram.Disse-lhes então Ilúvatar: - A partir do tema que lhes indiquei, desejo agora que criem juntos, em harmonia, uma Música Magnífica.E então as vozes dos Ainur, semelhantes a harpas e alaúdes, a flautas e trombetas, a violas e órgãos, e a inúmeros coros cantando com palavras, começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar, criando uma sinfonia magnífica; e surgiu um som de melodias em eterna mutação, entretecidas em harmonia, as quais, superando a audição, alcançaram as profundezas e as alturas, e as moradas de Ilúvatar encheram-se até transbordar; e a música e o eco da música saíram para o Vazio, e este não estava mais vazio.(...)Ilúvatar escutava sentado, e por muito tempo aquilo lhe pareceu bom, pois na música não havia falha. Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado.(...)Logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música à de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos...” (trechos retirado de Ainulindalë, de O Silmarillion)
A história de Melkor tem me deixado intrigado nestes últimos meses. Precisamente, tenho meditado sobre o seu comportamento e suas decisões, que trouxeram transtornos e desavenças em sua existência e na dos outros Ainur. Bem, ele era o maior dentre todos os Ainur e conhecia muito sobre Ilúvatar, porém isso não foi suficiente para conservar-lhe boa sabedoria, e decidiu tomar decisões diferentes do que lhe fora definido. Ele queria mais, ou melhor, ele queria ser O maior.
Assim, sua sucessão de decisões baseadas no que ele achava certo, seguindo seu próprio pensar e desejo, trouxe destruição, desavenças, guerras e mortes. Desde as dissonâncias na Música Magnífica - que ocasionou cisões e transtornos físicos na criação de Arda (o mundo onde se situa a história de Senhor dos Anéis) - , como as sucessivas perseguições e artimanhas para frustrar as criações dos Valar (os Ainur que habitaram Arda), a corrupção de diversos Maiar, os fraticídios entre os elfos, até as guerras sangrentas que se arrastaram pela Eras, Melkor trabalhou contra a vontade de Ilúvatar, para destruir tudo aquilo que ele prezava e queria.
Esta história parece um pouco familiar, não? Todavia, deixando um pouco de lado essa óbvia leitura arquetípica, salta-me aos olhos uma outra perspectiva que, mais recentemente, tem sido elemento reativo para diversas ponderações pessoais sobre a vida e o Evangelho.
O comportamento de Melkor nos é cristalinamente maligno, pois essa noção nos é bem clara na mente quando analisamos o todo, e principalmente ao pensar nas consequências de suas atitudes , porém não é imcompreensível. Tudo começou com uma pequena idéia, uma pequena vontade de fazer aquilo conforme ele queria. “Uma fagulha pode iniciar um incêndio”, já disse o sábio uma vez (talvez após ponderar as palavras de Tiago3.5). Quem poderia pensar ao ver Adolf Hittler aos 11 anos que ele se tornaria um ditador demente? As grandes ou decisivas atitudes, boas ou más, começam “no começo”, ou seja, na concepção mental como pensamentos pequenos, despercebidos e, em alguns casos, inocentes. Pequenas idéias que resultam em grandes negócios. Pensando assim, entendo que Melkor foi sendo seduzido gradativamente por suas paixões que o fizeram agarrar-se a um ideal próprio e torto que, por sua vez, conduziu seus caminhos a partir daí.
Eu já fui Melkor, e não me refiro ao meu tempo de ignorância da Palavra. Assim como Melkor conhecia Eru, eu já conhecia a Verdade, já havia aceitado a salvação em Jesus, estava envolvido nos trabalhos da igreja, e no ministério do louvor, mas isso não impediu que uma idéia brotasse despercebida na minha mente e me levasse a atitude egocêntricas, voltadas pro meu desejo e segundo a minha concepção das coisas. Não fui diretamente contra “Eru”, contudo meus pensamentos foram sendo preenchidos pelo meu desejo e pela soberba. Quando dei por mim estava numa jornada egoísta e de auto promoção sem sentido, sofrendo por coisas que estavam acontecendo, não conseguindo abrir mão dos meus ideias, afastando de Deus e sem forças pra buscá-lo. Ao invés de eu esperar pacientemente no Senhor (Salmos 40:1) e descansar meu coração nele, eu me deixei abater e senti o gosto amargo da “derrota”.
Nós, em todo tempo, somos conduzidos a situações em que temos que tomar decisões de diversos tipos, e muitas destas situações nos levarão a termos que optar entre algo que queremos e algo que devemos fazer, ou aquilo que pensamos ser bom mas que nossos pais nos orientaram a não fazer, ou até mesmo algo que Deus falou pra você fazer e oque você esta tentando negociar dentro das possibilidades. Em qualquer destas alternativas, e outras mais que possamos pensar, haverá um conflito de interesse: o seu desejo e o desejo de Deus; entre as nossas vontades e o nosso chamado; e, culminantemente, entre o “eu” e o “não eu”.
Em Mateus 16, versos 24 e 25, Jesus diz:
“[...] se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.”
Este aviso de Jesus é um dos mais claros com relação à dinâmica pessoal do Evangelho que, opinativamente, se resume em uma única verdade, contrária a corrente do mundo e a tendência sutil “melkoriana” da humanidade: o esvaziar-se de si mesmo. Enquanto o mundo nos chama para termos muito ou sermos o “bam bam bam”, Jesus nos chama para seguir seu exemplo: negar-se a si mesmo e tomar a sua cruz. Note que o “negar-se” não está se referindo somente ao pecado, que acredito ser incluído também no “tomar a sua cruz”, mas sim a um desprendimento como um todo, expresso de maneira mais forte no verso 25 como “perder a sua vida por amor de mim”. Em outras palavras poderíamos dizer que Jesus está falando: esvazie-se de ti mesmo, perca a ti mesmo, “morra-te” ! O próprio Jesus sendo Deus, esvaziou-se de si mesmo e negou-se o ser igual a Deus, como observado por Paulo na carta aos Filipenses capítulo 2 versos 6 e 7:
“[...] que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens”.
Em todo o evangelho, observado na igreja primitiva, nas atitudes dos apóstolos e, mais evidentemente, nas palavras de Jesus, somos instruídos a a deixar o egoísmo e nos voltarmos para um “altruísmo em Deus”. Todos os mandamentos são resumidos por Jesus, simplificativo, em apenas dois, segundo Mateus 22:37-40:
“[...] Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: Ame o seu próximo como a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas".
E ainda poderíamos falar de diversas passagens que nos mostram a realidade de abandonarmos as nossas vontades e vivermos as vontades de Deus. O próprio pecado, se você pensar, é uma satisfação egoísta.
Meus caros, não existe outra receita para o bolo, e nem um atalho pelo caminho. É óbvio que podemos desfrutar de muitas coisas que queremos, e o próprio Deus nos dá muitas coisas que podemos nos alegrar e saciar. Contudo, há algumas perguntas que devemos pensar a respeito: quem tem me regido, o Eu ou Deus? Minhas atitudes são apenas voltadas para meus interesses e benefícios próprios? Em situações de decisão tenho esperado em Deus ou tem sido apressado?
As palavras de Jesus sobre negar-se a si mesmo soam como um címbalo na minha cabeça, e tem me norteado a como proceder. Não é fácil negarmo-nos as vontades, não mesmo! Sempre temos que recordar que Jesus é nossa força e é Ele mesmo que opera em nós a sua vontade e querer. Quando a vontade apertar , a decisão chegar ou a pressão confrontar, pare, respire, reflita nas suas motivações e arrazoe com Deus, afinal, Ele se esvaziou por que nos ama, porque não devemos fazer o mesmo por ele?
Keep calm and don’t move like a Melkor!
Meus caros, não existe outra receita para o bolo, e nem um atalho pelo caminho. É óbvio que podemos desfrutar de muitas coisas que queremos, e o próprio Deus nos dá muitas coisas que podemos nos alegrar e saciar. Contudo, há algumas perguntas que devemos pensar a respeito: quem tem me regido, o Eu ou Deus? Minhas atitudes são apenas voltadas para meus interesses e benefícios próprios? Em situações de decisão tenho esperado em Deus ou tem sido apressado?
As palavras de Jesus sobre negar-se a si mesmo soam como um címbalo na minha cabeça, e tem me norteado a como proceder. Não é fácil negarmo-nos as vontades, não mesmo! Sempre temos que recordar que Jesus é nossa força e é Ele mesmo que opera em nós a sua vontade e querer. Quando a vontade apertar , a decisão chegar ou a pressão confrontar, pare, respire, reflita nas suas motivações e arrazoe com Deus, afinal, Ele se esvaziou por que nos ama, porque não devemos fazer o mesmo por ele?
Keep calm and don’t move like a Melkor!
Enio Pereira
Ex-ABUense
Amigo da ABU Alfenas
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